Eu tinha cinco anos quando conheci meu padrasto. As coisas pareciam bem, até que ele começou a conviver cada vez mais comigo e veio morar comigo e com minha mãe (nós morávamos com minha avó e meu avô também).

O tempo foi passando, e quando eu tinha cerca de 6 anos minha mãe engravidou; meu irmão nasceu quando eu tinha 7.

Um dia minha mãe acordou bem cedo para ir trabalhar, como de costume. Ela se levantou e pediu que eu fosse dormir na cama dela, pois meu irmão estava no meio da cama e poderia cair (meu padrasto estava do lado da parede). Ela disse que, se trocasse ele de lugar, ele poderia acordar, e meu padrasto precisava dormir porque iria trabalhar naquele dia. Eu obedeci e fui dormir na cama dela, lembro de ficar bem pertinho do meu irmão, pois adorava o cheiro de bebê que ele tinha.

Naquela manhã, mais tarde, acordei lentamente, ainda meio dormindo, quando senti uma mão mexendo na minha calcinha. Me assustei, dei um tapa na mão e levantei rapidamente. Falei com meu padrasto, mas ele apenas ficou parado, com os olhos fechados. Vi que ele colocou meu irmão de volta no lugar onde estava antes. Me assustei, me vesti rápido e fui para a casa da minha bisavó, que ficava na frente da casa da minha avó.

Contei a ela, mas ela não sabia o que fazer e disse que era melhor deixar quieto, mas que, se ele fizesse de novo, eu deveria bater nele.

E essa foi a primeira de muitas vezes. Eu continuei acordando e vendo ele me tocar (eu não dormia mais na cama da minha mãe, mas ele ia até meu quarto). Às vezes eu acordava e percebia que ele me fazia tocar no membro dele. Outras vezes ele se esfregava em mim; outras me destampava e mexia nas minhas roupas. Eu só fingia estar dormindo, não sabia o que fazer. Todas as noites eu chorava até dormir, com medo e triste. Para piorar, eu sofria bullying na escola e minha família toda era problemática. Minha relação com minha mãe sempre foi horrível.

Tentei de tudo para que ele não fizesse mais aquilo, até bater nele quando entrava no meu quarto depois do banho e me via nua. Isso tudo aconteceu até meus 10 anos. A última vez que o vi, ele estava espiando pela janela do banheiro enquanto eu me vestia.

Cansada de tanto chorar, contei para minha avó e passei a morar com ela. Minha mãe não sabia o motivo, nós inventamos desculpas para eu ficar lá.

Quando fiz 13 anos, voltei a morar com minha mãe e contei tudo para ela. Ela me disse que era coisa da minha cabeça, que ele nunca faria isso, e que na primeira vez ele deve ter pensado que era ela, confundindo-se enquanto dormia. Disse que, se eu quisesse falar com um psicólogo, tudo bem, mas que seria ruim para ele, pois iria para a cadeia, e isso estragaria a vida dele. Que eu precisava pensar bem no que queria fazer, pensar muito bem, porque isso estragaria a vida dele. Disse que às vezes o cérebro engana a gente, e que eu devia ter imaginado todas as outras vezes por ficar remoendo aquilo na cabeça. Eu não falei com um psicólogo. Me calei, achando que ela tinha razão.

Hoje, com 16 anos, moro com minha mãe e meu padrasto novamente e sinto medo todos os dias, não só dele, mas de qualquer homem que passa por mim na rua, de qualquer garoto que se aproxima, de qualquer olhar, gesto de gentileza ou sorriso. O medo e a dor são meus companheiros, e eu rezo pelo dia em que possa sair daqui.

Desenvolvi depressão e ansiedade (pelo menos acredito que sejam) e um medo crônico de homens. Demorei anos para me olhar no espelho; sofri com a puberdade, com medo de que as mudanças no meu corpo piorassem os assédios que eu poderia vir a sofrer. Perdi totalmente minha autoestima e não consegui voltar a viver bem.

Chego a sentir vontade de rir ao lembrar da minha mãe dizendo que eu estragaria a vida dele. Só no ano passado comecei a me sentir minimamente bem com meu corpo e a tentar lidar com tudo isso. Mas o medo sempre me acompanha, não importa quanto tempo passe, a dor nunca passa.

Sou grata pelo espaço para desabafar, eu precisava muito disso.