Eu tinha 17 anos quando o conheci, e ele, 25. Eu estava no 3º ano do ensino médio, e conheci ele através do meu melhor amigo, que o conhecia porque ele era amigo do namorado de uma amiga nossa, ou seja, ele era aquele cara mais velho inserido em um grupo de pessoas mais novas. Hoje eu o vejo como um completo fracassado, porque, se fosse um homem bem-sucedido, ou minimamente realizado, estaria andando com pessoas da idade dele, não com um bando de adolescentes de 17 a 19 anos. Além do meu ex, ele tinha outro grupo de amigos da mesma faixa etária, todos muito parecidos, um bando de homens fracassados.

Comecei a me relacionar com ele porque o achava incrível, com aquele deslumbre típico de quem conhece o "cara mais velho", que escutava músicas e filmes diferentes, parecia inteligente e culto. Mas pelos mesmos motivos pelos quais comecei a me relacionar, também terminei: eu me sentia pequena demais para ele. Hoje acho graça disso e sinto pena de mim mesma, eu era apenas uma menina e só não percebia.

Pois bem, o que aconteceu comigo e com esse grupo foi uma série de abusos físicos e psicológicos, que eu só vim a entender depois, com a ajuda de duas amigas.

Quando terminei com ele, ele começou a se relacionar com outra pessoa, mas ainda saímos juntos em grupo com os nossos amigos. O primeiro episódio dessa série de abusos foi na festa de uma amiga nossa, organizada para reunir a galera depois da pandemia. Eu já tinha 18 anos nessa época, e bebi muito para comemorar com amigos que não via há tempos. No dia seguinte, acordei com o cabelo molhado, vestida com roupas que eu não reconhecia, e ele estava abraçado comigo.

Uma coisa que preciso deixar clara é que, na noite anterior, eu tinha dito a ele que não queria mais nada romântico, que ele agora estava com outra pessoa e que eu gostaria de manter apenas a amizade. Ele me respondeu que ela não se importaria se a gente ficasse junto, e eu disse que não me importava com o que ela pensava, eu simplesmente não queria nada com ele.

No instante em que acordei, comecei a lembrar de flashes da noite anterior: eu debaixo de um chuveiro, com ele ejaculando no meu peito e segurando meu cabelo com força. Lembro de nem conseguir me mexer direito, sem saber como tinha chegado ali, naquela situação. Fiquei paralisada, deitada, com ele abraçado em mim por um tempo; depois me levantei, chamei minha amiga, que morava perto da minha casa, e fomos embora.

Contei a ela o que tinha acontecido, e ela ficou sem entender, assim como eu. Mas, naquela idade, eu só pensei que tinha consentido bêbada, e que estava tudo bem. Para ser sincera, a possibilidade de ter sido abusada nem passou pela minha cabeça; eu só sentia um misto de sentimentos que não conseguia descrever. Até hoje é difícil descrever como me sinto, mas acho que quem está lendo isso talvez me entenda, só quem passa por uma situação assim sabe o que morre dentro da gente naquele exato momento.

Depois desse episódio, passei por outra série de abusos psicológicos e físicos, vindos dele e de outros amigos dele. Só fui quebrar esse ciclo quando, numa conversa boba de bar com uma amiga da namorada dele, contei um dos episódios de forma despretensiosa. Ela fez uma cara de horror, e eu não entendi o motivo, ela era estudante de direito na época. Me deu o número dela e disse para eu mandar uma mensagem no dia seguinte, contando a história novamente, sem poupar detalhes. Eu contei, e a resposta foi: "Você foi abusada. Sinto muito te falar dessa maneira. Se quiser denunciar, estou aqui para te ajudar; se precisar de ajuda psicológica, também estou aqui, a gente procura juntas." Eu não respondi, só fiquei encarando a mensagem por um bom tempo. Mas, no fundo, eu sabia: sabia que tinha sido, e que de alguma forma ainda estava sendo abusada.

A história ainda tem muito a desenrolar, mas é difícil, daria um livro inteiro, eu acho. Contei para a namorada dele, obviamente. Ela preferiu se afastar de mim e da amiga que me mostrou apoio, e continua com ele até hoje. Atualmente me sinto totalmente frustrada com tudo. Tenho dificuldade em impor limites e em discernir o que é, de fato, consentimento meu e o que não é. Acho que talvez nunca vá me curar completamente, e que isso vai me assombrar para sempre.

Enfim, é isso.