Falar sobre abuso sexual e estupro de vulnerável nunca é fácil, você se expõe e lhe acusam de vitimismo por contar sua história. Hoje tenho 34 anos, mas fui abusada pelo meu genitor dos 7 aos 9 de idade, sem ao menos saber o que é isso. Tal efeito na minha vida foi na universidade a descobri que toda dor que sentia era real e fazia sentido, acabei me tornando militante e não aceitei o silêncio, mesmo silenciada. Porque o assunto não poderia ser dito, menos ainda haver acusação, pois todo mundo abomina o estupro até ser o seu parente.
A bomba estourou perto do momento do meu maior sonho, que ficou reduzido a defesa e se tornou sobrevivência no término do curso. Ele foi julgado e preso por abusar de outra menina uma semana antes da defesa do Doutorado, deveria ter ficado feliz, era minha realização profissional, mas entrei em surto e recebi acusações que não gostava, mesmo sendo ameaçada por ele de ser cruel, que deveria perdoar e nunca expor nada, eu o prejudicaria.
Meus pais se divorciaram por outros motivos, mas minha mãe foi acusada por não me proteger de algo que ela não sabia. Sofremos assédio por ligações dos advogados pedindo que alegasse como ele era um bom pai. Em meio ao caos, surtei, amigos foram embora, porque minha história não era para ser dita e porque pedi ajuda por plicativo de mensagens instantâneas, até financeira, porque a dor era tão forte que só queria morrer. Poucos entenderam, foram embora, fiz tratamento, mudei de emprego e sobrevivi.
Diferente de muitas que passaram pelo mesmo, tenho um emprego legal, sou doutora em educação por uma Universidade Federal e recebi alta da depressão (medicamentos), faço terapia pois ter esse acesso é privilégio.
Faço esse texto no dia da mulher, pois quero respeito a minha história e que protejam nossas meninas para não sofrerem o mesmo. Não fui a primeira, mas sonho com o dia de ser a única.